Ïliel Klidné-vody é um “recém-adulto”, de dezoito anos de idade, que vive no interior da República Tcheca, numa pequena cidade chamada Zelených Kopců, uma cidade de mineradores de ferro.
Cabelos relativamente longos e desgrenhados, de um louro puro como ouro, pele bem clara, olhos azuis como o céu ao amanhecer, magricelo e alto, um pouco fora do normal para uma criança, desenvolvendo uma corcunda devido a isto, a fim de disfarçar sua altura por ser motivo de piada no seu período escolar. Sempre fora um jovem deslocado dos demais de sua idade, culpando-se pela morte da mãe, que falecera durante seu parto prematuro, vivendo e criado por seu pai desde bebê, antigo minerador e agora aposentado por motivos de saúde, que se encontrava em estágio bem avançado.
Com poucos recursos, sempre levou sua vida de forma bem humilde. Usava roupas simples, calças jeans, camisa de malha com um sobretudo surrado, antigo de seu pai, usado para se proteger do frio, e tênis ‘allstar’. Embora tenha concluído os estudos, nunca teve muitos sucessos acadêmicos ou esportivos devido a seu corpo desproporcional. De forma alguma tentou esbanjar qualquer característica em que pudesse ter destaque.
Aos dez anos, no dia de seu aniversário, oito de Junho, ganhara de seu pai um pequeno violão. Através daquele pequeno presente, despertou talvez, sua única real habilidade, a música, em apenas poucos meses, através de revistas direcionadas, pouco didáticas, mostrou ser bem versátil e criativo para o ramo, embora nunca se expondo ou revelando isso a alguém. Escrevera algumas letras e compôs melodias para as mesmas, alimentou em segredo, o sonho de quem sabe, tornar-se musico profissional, embora não acreditasse que um dia pudesse alcançar isto.
Aos quinze anos de idade conhecera Evee MacAlister. Uma adorável menina vinda de Londres cujos pais mudaram-se para Zelených Kopců. Era meiga e adorável, com bochechas rosadas, cabelos encaracolados longos e negros, pele clara e corpo esbelto, olhos cor de mel. Por algum motivo especial conseguira se aproximar de Ïliel, talvez por ter um estereótipo diferente das pessoas locais.
Logo Ïliel iria se apaixonar por Evee, mas seus sonhos seriam abalados pela chegada de Peter O’Donnel, também vindo de Londres. Peter era descolado, diferente de Ïliel. Cabelos curtos e louros, olhos castanhos, pele amorenada pelo sol, vivera em algum país da América do Sul antes de vir para Zelených Kopců, altura média, com um pouco de habilidades esportivas e excelentes notas. Embora fugisse do padrão de Ïliel, tornaram-se logo bons amigos, de alguma forma era diferente dos demais. Alguns meses após sua chegada, para a melancolia de Ïl, como era chamado pelos amigos, Peter e Evee começaram a namorar, depois disto, ele viria a compor uma música. Mas de qualquer forma, os três eram bons amigos.
Hoje, Evee e Peter se preparavam para ingressar a faculdade, Evee indo cursar História e Peter Arquitetura, enquanto Ïliel começara a trabalhar na ‘Mercearia do Al’, para poder auxiliar nas despesas de casa, já que o estado de saúde de seu pai agravava a cada dia, ele havia respirado muita poeira na extração de minério e isto comprometera seus pulmões. Mesmo o governo dando auxílios, não era o suficiente para manter as finanças da casa, o que tornava mais distantes os sonhos de Ïl mudar-se daquele lugar e correr em busca de seus sonhos.
Trabalhar com Al não era tão ruim, era até fácil, apenas varrer o chão, tirar o pó e arrumar as prateleiras e contar o estoque, sobrava até tempo para praticar sua musica no segundo andar do depósito, ali havia uma velha guitarra que comprara com as economias de seus primeiros salários. Trabalhava das oito da manhã às quatro da tarde, saia da mercearia e ia para casa arrumar um pouco a bagunça deixada e cuidar dos remédios de seu pai. Nos dias de inverno, à noite, os três amigos se revezavam entre suas respectivas casas para conversarem, fazerem planos para o futuro ou beber umas cervejas. Nos dias de verão se encontravam na rua e freqüentavam o Pub local, ‘A Taverna do Sátiro’, onde se embriagavam e falavam besteiras. Alcoolizado, algumas vezes Ïl não tolerava as provocações de seus ex-companheiros de classe, que também se reuniam ali, mas Peter sempre contornava a situação, a final, acreditava que seu amigo “magrelo” não seria adversário difícil para os valentões, e o levava para casa, no caminho, os três riam de toda aquela besteira.
Isto vinha se repetindo por alguns anos, mas agora seria diferente, em alguns meses seus amigos estariam indo para a cidade grande, Pevnost Stone, onde fariam faculdade, e ele permaneceria naquele lugarejo, sabe-se lá até quando. Ïliel não admitia isto, mas muito o incomodava, nunca poderia dizer a seus amigos, era o futuro deles e não poderia jamais tentar interromper, a final, não gostaria que acontecesse com ele e, embora Evee e Peter soubessem da verdade, também preferiam se calar sobre o assunto, ao menos, até estar perto do fardo se tornar realidade.
Hoje, embora fosse uma sexta-feira, Ïl estava de folga, era seu aniversário, oito de Junho, e Al tinha-o liberado de seus afazeres, era um bom patrão. Al o conhecia desde pequeno, ele e seu pai foram amigos de infância e ajudara a cria-lo na ausência da mãe. Desde que seu pai ficara doente, Al contribuía nas despesas dos Klidné-vody, sem conhecimento de ambos, é claro, seja na interceptação de contas antes que os correios entregassem, seja com súbitas promoções para a família. O próprio emprego do garoto foi uma forma que um velho amigo havia encontrado para ajudar a outro, embora concordasse que fosse um pecado prender um jovem como o pequeno Ïliel naquela cidade do interior, era como se estivesse vendo um pássaro cantando preso dentro de uma gaiola, se bem que neste caso, o pássaro cantaria tão baixo que ninguém o escutaria, mas não intervia naquele assunto, pois, acreditava que cada um tinha seu fardo por algum motivo, fosse qual fosse.
Já se passavam das dez horas da manhã, como era seu dia de folga, queria acordar tarde, situação pouco rotineira. Embora fosse verão, naquele dia fazia frio, uma neblina estava formada do lado de fora, estava vestindo um pijama velho, talvez tivesse sido de seu pai, um dos pés calçado com uma meia encardida com furo no dedão, a outra sabe-se lá onde estava. Enroscava-se num cobertor velho e curto para seu tamanho, o colchão assumia a forma de seu corpo e o travesseiro de sua cabeça, esta latejava, era um pouco de ressaca da noite anterior que mal se lembrava. No chão, algumas latas de cerveja barata estavam caídas vazias. Seus olhos ainda embaçados e cheios de remelas pesavam ao mesmo tempo em que fitavam o nada, “era o décimo oitavo ano de uma vida medíocre e culpada” – pensava. As paredes de seu quarto, assim como o assoalho, eram de madeira, típico de chalés da região, impregnadas de infiltrações, a impressão era de uma casa muito velha e mal cuidada, como aquelas de filmes de terror. Em frente à cama havia uma janela, com vidros rachados, estava com um vão aberto para entrar um pouco de ar, o que não adiantava, o ambiente fedia a mofo. Observando melhor, no encontro das paredes haviam restos de papel de parede que um dia teria sido azulado, mas agora estava desbotado. A luz que vinha da janela era quebrada por cortinas velhas, também desbotadas, com desenhos que lembravam palhaços, era amarelada, mas não dava para dizer se era por serem velhas ou sua cor natural. Do teto vinha pendurado um fio com uma lâmpada apagada, parecia estar queimada, coisa que não o incomodaria. Havia um criado mudo ao lado da cama com um abajur em forma de carro de “Formula
Remexera-se na cama, sentia dores por todo o corpo e sua cabeça latejava. Virou para um dos lados para tentar dormir novamente, mas não conseguia. Sentou-se na cama, coçou os olhos e a cabeça, levantou-se, deu alguns passos até a estante, pegou seu violão e novamente se sentou à cama. Mesmo com a corda arrebentada, começou a tocar uma canção que compunha em seu último aniversário, tinha dado a ela o nome de “C’est
Abriu a porta do quarto e foi até o banheiro, que ficava entre seu quarto e o de seu pai. Ouviu o velho tossindo no outro quarto. Entrou no banheiro, bem apertado, um chuveiro sem cortina, pia e privada quase que se encontrando dentro daquele cubículo, olhou no espelho, estava com a cara horrível, olheiras expressivamente fundas e escurecidas. Jogou água no rosto, escovou os dentes e penteou o cabelo como pôde. Saiu do banheiro, o pai já havia descido. Começou a descer as escadas, a casa estranhamente iluminada, o velho deveria ter aberto as janelas da sala. Chegou à sala. De lá podia ouvir seu pai tossindo na cozinha, naquela manhã ele estava tossindo mais que o normal. A sala da casa não era grande. Paredes e assoalho de madeira bem envelhecida, o velho cheiro de mofo, agora um pouco disfarçado pela brisa que entrava pelas janelas abertas, quatro, todas com os vidros trincados, uma em cada parede lateral, e duas ao lado da porta que dava para a frente da casa, numa varanda, via-se nela uma grade também em madeira, que circundava sua extensão e uns vasos com plantas mortas. Aos fundos da sala uma porta que dava para a cozinha e outra para a dispensa. No centro da sala, um tapete vinho, bem velho, dois sofás e duas poltronas de couro, bem velhas também, como tudo naquele lugar, uma mesa de centro com um incenso aceso sobre ela. No fundo da sala uma cristaleira quase vazia, devia haver poucos copos e umas duas ou três garrafas com algum tipo de bebida que ele ainda não havia consumido.
Continuava escutando seu pai tossindo na cozinha. Foi até lá para ver o que estava acontecendo. Quando passou pela porta levou um susto, se deparou com Evee, Peter e o velho Kïlmn, seu pai. Os três cantavam parabéns para ele. A cozinha estava excepcionalmente limpa, devia ser obra de Evee. Era toda decorada com azulejos brancos com flores desenhadas, sua mãe deveria gostar. Quatro janelas na mesma disposição das da sala, sendo que a porta dava para uma pequena área aos fundos da casa. Armários embutidos na parede, todos de madeira, um fogão quatro bocas, uma geladeira “anos
Evee estava parada ao lado da pia, usava um casaco comprido, ia até a metade de suas pernas, parecia de pele, mas deveria ser sintético, sandálias vermelhas com salto sutil e cabelo preso, ao seu lado estava Peter, calças jeans como as de Ïl, só que novas, tênis pretos e jaqueta. Seu pai do outro lado, usava seus velhos chinelos gastos e cinzentos e o sobretudo que não encontrara mais cedo, todos com belos sorrisos estampados no rosto, inclusive seu pai, a pensar da crise de tosse. Ïliel sentiu um pouco de vergonha, mas ficou feliz e soltou um singelo sorriso, afinal, era seu aniversario e ele estava reunido com as únicas pessoas que ainda faziam parte de sua vida. Evee e Peter olharam para o rosto de Ïliel e entreolharam-se, com um sinal de espanto, mas isso logo foi esquecido.
Seu velho pai estava com os olhos cheios de lágrimas, a final, seu filho único fazia dezoito anos, era um adulto agora. Veio até ele e lhe deu um caloroso abraço, interrompido por uma crise de tosse. Ïl estava começando a se preocupar.
- Parabéns querido filho – disse o velho, com uma voz ‘calejada’ pela idade e doença – desejo-te toda a felicidade deste mundo, você a merece, tenho muito orgulho deste meu pequeno que agora se torna um homem, atura este velho resmungão todos os dias e cuida sem reclamar de nada.
- Obrigado Kïlmn – Ïl chamava seu pai assim, mas sempre de forma bem carinhosa, mas agora num tom meio emocionado, nunca vira tal expressão em seu pai – E o senhor, já tomou seus remédios esta manhã?
- Manhã, já passa do meio dia seu à-toa – quem falava agora era Peter, uma voz suave, como as de cantores de sucesso. Ele vinha em sua direção e dava tapinhas em suas costas – Parabéns garoto, este ano será tudo muito diferente para sua vida, sinto isso.
- Realmente espero que seja – diz num tom satírico.
Enquanto o rapaz conferia as horas num relógio sobre a geladeira, Evee caminhava em sua direção, com aquele sorriso apaixonante, bochechas róseas e voz doce.
- Parabéns meu lindo – diz ela, abraçando-o e dando-lhe um beijo no rosto. Ïliel sentia-se congelado ao mesmo tempo em que quente como num vulcão, sua bochechas coraram. No fundo, Evee sabia do amor secreto que Ïl sentia por ela, mas ingenuamente tratava aquilo como amor entre irmãos, já que namorava com seu melhor amigo e ele também nunca havia tocado no assunto. Talvez ela sentisse algo por ele também, mas isso é assunto para outros momentos.
- E então, - continuou Evee – estou com fome, vocês não? Vamos começar a comer, a final, é a melhor parte da comemoração – disse isso num tom de brincadeira de criança.
Ela se dirigiu ao fogão, Ïl não havia percebido, mas algo estava cozinhando. Abriu o fogão e tirou uma tigela de vidro onde havia uma torta salgada, a preferida do aniversariante. Todos sentaram-se à mesa, Peter serviu-se seguido dos demais. Levara um tapinha de Evee, “o aniversariante primeiro”, disse enquanto todos riam.
A torta estava deliciosa, era de frango e batatas. Todos comiam enquanto falavam assuntos corriqueiros. Kïlmn tentava controlar a crise, que já incomodava o filho que estava preocupado. Terminaram de comer e prosseguiram a conversa por mais um tempo. Evee se levantara e começava a tirar as coisas da mesa para que pudessem cantar os parabéns e comer o bolo de chocolate, Ïliel amava chocolate com morangos. Uma imagem aparece através da vidraça e escutam-se batidas ritmadas na porta. Ïl se levanta e vai abrir a porta.
- Parabéns ‘barum’ – entra pela porta e abraçando Ïliel, um homem de baixa estatura, barrigudo, barba grisalha e pele clara, careca, usava uma camisa verde e calça bege presa por suspensório e botas galocha. Era Al, seu patrão, e ‘barum’ era o apelido que dera ao rapaz.
Peter buscou mais uma cadeira para que Al se juntasse ao grupo. Logo cantaram parabéns, o bolo foi servido e Ïl abria o refrigerante. Todos deliciavam-se com o doce ao mesmo tempo em que conversavam. Era um clima muito bom aquele vivido ali, nunca sentira-se assim, parecia leve, como se nenhum problema pudesse abatê-lo agora.
Já eram quase cinco horas da tarde, Al havia retornado para a mercearia. Kïlmn pediu licença e levantou-se da mesa.
- Aonde o senhor vai pai?
- É hora desse velho descansar um pouco e deixar os que ainda são jovens conversarem um pouco sobre seus assuntos de jovens – disse, tentado segurar um pouco a tosse – Tenho que tomar meus remédios e ir ao banheiro, comi demais e não uso fraldas geriátricas ainda, ‘heheh’. – termina num tom de palhaçada e sai da cozinha.
Agora haviam ficado apenas os três naquele lugar. Peter levantou e fechou a porta que dava para sala. Evee olhou para Ïl com uma cara de confusa – “O que houve com seu rosto?” – pergunta num tom de preocupação.
- Nada, tem algo errado? – responde ingenuamente.
- Errado, esse ‘nada’ é que está errado! Se me lembro bem, quando te trouxemos para casa ontem, você estava com um corte na sobrancelha! Imaginei que até fosse amanhecer com o olho roxo, daí, chego aqui e você com essa cara de pastel!
- Ficamos bastante preocupados com você – interrompe Peter, acalmando a namorada – Você levou uma surra ontem, achávamos que até teria quebrado alguma costela. Como está se sentindo ‘barum’? – num tom sarcástico.
- Sinto minha cabeça latejando e dores por todo o corpo, mas não lembro de nada ontem, apenas de umas cervejas que tomávamos no ‘Sátiro’...
- Umas cervejas?! - continua Peter - Você bebeu de tudo e mais um pouco ontem, discutiu com Tom Praha e os dois entraram na ‘pancadaria’,Você apanhou muito, por muita sorte tiramos você do bar e o trouxemos para cá, Evee até queria te levar ao hospital, mas achei que seria desnecessário.
Agora Ïliel tentava forçar sua memória. Vinha para eles alguns fleches, ele bebendo cervejas, uma após a outra, estava revoltado por algum motivo que não se lembrava, Tom Praha, um cara mais alto que ele agora, robusto, cabeça raspada, barba por fazer, semblante de marginal, caçoava dele, que estando bêbado, reponde com outra piada, os dois discutem e Tom dá um soco em seu olho esquerdo, ele cai no chão. Tom começa a chutar suas costelas, daí em diante não se lembra de mais nada. Tom Praha sempre fora o ‘colega de classe’ que zombava de Ïliel ou coordenava a zombaria dos outros, sempre sem qualquer motivo específico. Naquela noite Ïl não se lembrava, mas ele havia sido chamado de assassino por Tom, a pior coisa para ele, sua maior vergonha, embora não fosse culpado.
Neste instante param o assunto ao escutarem passos carregados em direção a porta da cozinha. Eles observam, ela se abre e entra Kïlmn, vestindo um roupão roxo surrado, com um pacote pequeno e amassado em suas mão, olhos cheios de lágrimas.
- Aconteceu alguma coisa Kïlmn? Precisa de algo?!
- Não meu filho - agora com a voz mais rouca que de costume – Me desculpe filho querido, sei que você merece muito mais que isto aqui, mas não tinha dinheiro para outra coisa...
Ïl interrompe o pai que caíra em lágrimas e abraça-o forte, o velho tosse e ambos choram. O casal à mesa fica emocionado com a cena. No pacote havia um jogo de cordas para violão, seu pai devia ter visto a corda arrebentada. Foi o melhor presente vindo de seu pai que podia ter ganho naquele dia.
- Puxa velho, não precisava gastar suas economias comigo, devia ter guardado para algo importante! – Diz ainda chorando.
- Deixa esse velho aqui decidir o que é importante ou não para ele. A música é única coisa além de seus amigos que te trazem um pouco de alegria. Acredite, para um pai, ver o filho amargurado dia e noite, não é nada fácil! Hoje é seu dia, um dia merecido, você deve sair à noite para relaxar com essas duas criaturas aqui e deixar esse encosto um pouco de lado! Bom, agora vou para meu quarto assistir um pouco do jornal, fiquem aí, a casa é de vocês. - e sai enxugando os olhos. Escuta-se o barulho da tosse sumindo.
Evee e Peter se entreolham, lembrando-se que em alguns meses deixariam o amigo para trás, sentem um pouco de culpa, mas o que poderiam fazer? Nada além de esperarem por um milagre na vida de Ïl. Peter puxa assunto para quebrar o clima.
- E então ‘barum’ – novamente num tom sarcástico – vamos à ‘Taverna do Sátiro’ hoje à noite? Já que é seu aniversário, será por minha conta!
- Para começar, pare de me chamar de ‘barum’ seu 'babaca', já basta o Al! – Ïl já havia recuperado um pouco do fôlego – Depois, estou com um mau pressentimento. Meu pai está tossindo demais, fora do comum, e isto está me deixando bastante preocupado...
- Ïl - indagou Evee – quando que você não está preocupado com a saúde de seu pai? Que eu me lembre, desde que te conheci! Desculpe minha franqueza, mas ele está velho, você sabe, muito doente, não é querendo deixá-lo de lado, mas você também tem que viver sua vida um pouco, tudo o que faz é em função dele. Ele não estará aqui para sempre, sim, eu também cuidaria de minha família se precisasse, mas também tem que viver sua vida...
Evee estava certa. Relutou com seus pensamentos e vontades, mas cedeu, não poderia ficar enclausurado naquele lugar mórbido para sempre.
- Ok, ok, eu vou! – Todos sorriram – Mas vou esperar passar a hora dos remédios dele, esperar que pegue no sono.
- Isso aí ‘barum’! – fala Peter levantando-se, Ïliel faz cara de mau humor pela piada, mas logo a desfaz – Vou pegar o carro da minha mãe hoje à noite. Busco vocês às nove horas, está bem?
- OK!
- Vamos ‘gatinha’, ‘barum’ tem que se arrumar e nós também...
Os três se levantam e despedem-se. Ïl leva os amigos até a porta da frente. Os dois passam pela varanda mal iluminada. Já estava escuro, deveria passar das seis e trinta. O céu estava nebuloso, ventava frio. Uma pequena garoa começava a cair. Na frente da casa havia um gramado verde com algumas roseiras e uma outra planta com perfume adocicado, Ïl devia cuidar do jardim. Um caminho de pedras levava da saída de sua varanda até a calçada. Era uma rua asfaltada e sua casa ficava na esquina, havia um visinho de frente e um ao lado direito, ambos com mesmo estilo de casa, mas bem cuidadas e pintadas em tons vívidos. Já a casa dele era semelhante ao lado de dentro, madeira envernizada. “Tente não arranjar brigas hoje ‘wolverine’...”, brincou Evee ao virar à esquina.
Sozinho novamente, volta à cozinha. Lava os últimos pratos e copos sujos e coloca-os para secar. Pega o presente que sei pai lhe dera e sobe as escadas. Vai direto para seu quarto, dava para escutar seu pai cochilar no outro. Entra, acende o abajur, fecha a janela que ainda estava entre aberta e desliga a televisão velha que deixara ligada, o sinal estava péssimo. Pega seu violão e troca as cordas velhas pelas que havia ganho. Começa a afinar o violão, meio tom abaixo que de costume, tinha uma idéia para nova musica. Começou a tocar, embora seu estado de espírito não fosse dos melhores, estava compondo uma musica mais leve, feliz. Ficou quase uma hora tocando aquela melodia, sentiu-se perdido no tempo. Nomeou-a ‘Carpe Diem’, ‘Aproveite o Dia’, em Latim, lembrava disso de alguma aula de literatura que tivera, queria dizer 'Viva a vida ao extremo', algo assim, dos teóricos malucos do iluminismo, como chamava. A letra deixaria para outra ocasião.
Separou umas roupas e foi tomar seu banho. Entrou no banheiro, pendurou as roupas que usava atrás da porta e liga o chuveiro, a água cai inicialmente fria, mas esquenta em seguida, isto pelo menos funcionava bem naquele lugar entra e começa o banho. De baixo daquela água, começa a pensar em todo aquele dia até aquele momento, “um dia muito irreal”, pensou alto. Desligou o chuveiro, secou-se e em seguida o chão, que molhara pela falta de uma cortina, enrolou a toalha na cintura e foi para seu quarto. Começou a se vestir, desta vez queria estar bem vestido, colocou as melhores roupas que tinha, não que fossem fazer muita diferença, mas para ele faria. Calça de um tecido estranho, preta, tênis ‘allstar’ como de costume, só que este preto e mais conservado, camisa azul clara, na verdade, nunca tinha usado esta, fora presente do Al no ano passado. Por cima de tudo, o velho sobre tudo que estava no quarto do pai, a final, chovia e fazia um pouco de frio.
Foi até o quarto de seu pai, a porta estava aberta. Quarto muito mal iluminado, apenas pela luz da televisão ligada, que agora tinha um sinal melhor. Uma cama de casal ao centro, nela o pai estava deitado. Dois criados mudos, um de cada lado da cama, ambos com abajures até que elegantes, deveria ser ao gosto de sua falecida mãe. Um armário grande e uma cômoda com um porta retratos, mas não dava para a foto ser vista devido à falta de luz e uma pequena mesa onde ficava a ‘TV’. Pegou o casaco e vestiu, observou seu pai e viu que estava acordado.
- Já tomou seus remédios? Vou sair com Pet e Evee, se incomoda?
- Já os tomei. Saia sim, você merece um dia de lazer, estou me sentindo melhor um pouco, não se preocupe. Ao sair, deixe as chaves no vão da madeira solta, Al vem aqui mais tarde para conversarmos...
- Tudo bem. Vou ao ‘Sátiro’, se precisar, pede ao Al para ligar para lá e me chamar...
- Já falei para não se preocupar...
Ïliel consentiu com a cabeça e saiu do quarto. Passou pelo banheiro e penteou um pouco os cabelos, colocou umas gotas do perfume do pai e desceu as escadas. Viu no relógio da sala que já eram nove e dez, odiava que combinassem horário com ele e atrasassem, mas isso era típico do Peter. Saiu pela porta dos fundos, trancou-a e colocou as chaves num pequeno vão de umas das madeiras do assoalho que estava solta, usavam aquele lugar como esconderijo há anos, apenas ele, seu pai e Al sabiam do lugar, talvez Peter e Evee também soubessem, mas não faria diferença. Tirou de bolso do sobretudo um pacote de cigarros que havia deixado ali na noite anterior, dentro, apenas cinco cigarros e um isqueiro do tipo zippo. Acendeu o cigarro e caminhou até a frente de sua casa, onde ficou a espera dos amigos. A rua era bem iluminada, deveria haver umas vinte casas de cada lado, todas no mesmo estilo de arquitetura. Era próximo ao centro, onde ficava a prefeitura, hospital, delegacia, o ‘Sátiro’, ‘Mercearia do Al’ e outros lugares. A calçada era bem arborizada, com umas cinco ou seis latas de lixo em cada lado na extensão da rua. A calçada era de pedra. A rua estava silenciosa, as casas com suas janelas iluminadas, as famílias estariam jantando ou assistindo ‘TV’ juntas, situação que nunca teria. O Silêncio foi interrompido pelo barulho de um carro que vinha. Era um carro popular, quatro portas, azul escuro, no banco da frente estava Peter, guiando o carro, e Evee ao seu lado. “Entra logo, está esperando o que?”, indagou Peter. Apagou o cigarro e entrou no carro, sentou-se atrás do banco de Evee. No som do carro tocava Pearl Jam, Alive era a música, e embora o estilo não o agradasse muito, não falou nada. Andaram por uns dez minutos, passaram por ruas não muito diferentes da que morava, por um cruzamento e chegaram a uma praça, contornaram-na, entraram numa rotatória, saíram numa rua de pistas duplas, até que o carro parou. Estacionaram em frente à delegacia, o bar que iriam, ‘Taverna do Sátiro’ , ficava há alguns metros dali. Caminharam até lá. Peter se vestia semelhante ao que usava durante a tarde e Evee o mesmo casaco, só que com calças escuras e sapatos fechados. Entraram no bar.
O ‘Sátiro’ era um lugar bem amplo, com três ambientes: o bar propriamente dito, um hall com mesas de sinuca e dardos e um restaurante. Seguiram para o bar. A iluminação era ambientada para acomodar shows ao vivo, havia bastantes bandas locais que tocavam lá. O balcão era em forma de meia lua, ia do palco ao outro lado, onde ficavam os banheiros. Em frente al palco havia um espaço livre e logo em seguida umas mesas pequenas, para dois e quatro lugares. No balcão também haviam bancos, onde preferiram ficar. Havia dois barmen e uma garçonete. Ao fundo do balcão, uma estante com garrafas dos mais variados tipos de bebida e copos de todos os formatos e tamanhos. Atrás do balcão via-se uma estante, duas pias e quatro saídas de shop. Os funcionários usavam roupas vermelhas com aventais marrons bem escuros naquela noite. Algumas mesas estavam ocupadas por casais ou amigos, algumas pessoas ao balcão conversando e a banda se preparava para tocar, eles ainda não sabiam o que seria. “Fique tranqüilo Ïl, hoje eu faço questão de pagar, como esqueci do seu presente, esta noite fica como tal...”, diz Peter. Cada um pediu uma cerveja e um petisco qualquer, e começaram a bater papo. A banda começou a tocar, era uma banda que tocava ‘coveres’ de clássicos de ‘Hard Rock’, muito agradável e talentosos.
Evee e Peter já haviam tomado algumas cervejas, Ïl ia com calma, não queria passar outro vexame. Durante o show, o local havia ficado lotado, essa banda já era conhecida, eles mesmo já tinham-na escutado, mas com outro repertório. Após uma hora e meia de show a banda fazia um intervalo. O bar esvaziou um pouco, algumas pessoas tinham saído para fumar ou fazerem outras coisas no estacionamento. Ïl estava um pouco desanimado aquela noite, mas era seu aniversário e não poderia desapontar seu amigos, levantou-se.
- Vamos ao hall de jogos? Que tal uma sinuca? – Convidou.
- Acho ótimo, vamos sim... – Concordou Evee levantando-se seguida de Peter.
Saíram do bar, ao lado, a porta do restaurante estava trancada, funcionava apenas durante a manhã. Seguiram até o hall de jogos. O ambiente ali era bem mais iluminado. Tinha cinco alvos para dardos, três mesas de sinuca e algumas máquinas de Flipper, uma pequena extensão do bar e acesso aos banheiros pela lateral. Duas das mesas de sinuca estavam desocupadas, os dardos e o flipper bem cheios. Alugaram uma mesa com a garçonete e começaram a jogar. Cada um pegou mais uma cerveja e Ïliel acendeu um cigarro, ali era permitido fumar. Hoje Ïliel estava bem sóbrio, sem qualquer sinal de embriaguês.
Já havia passado mais de meia hora, a banda voltara a tocar havia uns dez minutos, “Jump’n’Shadows” era o nome da banda, lembrara Peter. Preferiram continuar jogando, dia de sorte de Ïl, estava ganhando, embora desconfiasse que os amigos estivessem facilitando aquela noite. Era a vez de dele jogar, a bola estava na mira de ser encassapada, se aprumou, fechou um dos olhos, posicionou-se e no momento que ia golpear a bola branca, levou um esbarrão, sutilmente forte. Errou a caçapa. Ficou irado e ia se virando quando escutou aquela voz deboxada:
-Ïlzinho, me desculpa, prometo que foi sem querer. Por favor, não deixe suas costelas acertarem a ponta de meu pé, ele pode se acostumar... ‘Hahahah’ – Era Tom Praha. Vestia uma jaqueta de couro, a barba por fazer e cabeça raspada como de costume.
Peter e Evee se afastaram e numa mímica tentaram fazer com que Ïl viesse com eles. Ïliel estava enfurecido, talvez, como já mais estivesse ficado, seu rosto ficara vermelho, olhos lacrimejavam, levantou-se com a mão fechada e encostou à mesa, virando-se para Tom. Hoje era seu aniversário, por todos aqueles anos fora humilhado por aquela pessoa, ontem acontecera novamente e hoje tudo estava indicando o ‘repeteco’, escutava algumas gargalhadas das pessoas à volta e murmúrios do tipo ‘o saco de pancada está de volta’ ou ‘pobre coitado, apanha a dezoito anos e não cansa...’. ‘Hoje não’, pensou ele, ‘Não na frente de Evee, estou cansado disso, Pet disse que minha vida iria mudar, acho que começa por aqui...’, e em seguida apontou com o dedo na cara de Tom.
-Quem você pensa que é para me tratar desta forma? Todo esse tempo? – Falou com a voz esganiça de raiva, Evee fechava os olhos e Peter estava atônito. Tom fez uma cara de como quem diz ‘É comigo?’ e o garoto continuou – Você já pisou em mim por tempo demais. Cansei, cansei de tudo isso, dessa cidade medíocre, pessoas medíocres, você e essa corja que segue e ri de suas piadas sem graça... – Nesse momento algumas das pessoas que riam param e fecham a cara para ele também – Você se diz muito homem, mas não passa de um valentão covarde que cresce às custas de pisar nos outros. E eu? Sempre fui idiota de me deixar abalar. Cansei, basta! Acho que já é hora de você ficar na sua e me deixar em PAZ!
Evee e Peter não estavam acreditando na reação de Ïliel, nunca tinham-no visto agindo daquela maneira. Peter começou a ver seu amigo ser esmigalhado anaquele local, em frente àquela sinuca, sendo humilhado como jamais fora, e pela situação, ninguém poderia ajuda-lo desta vez, se não ele mesmo.
-Quem diria, o franguinho pondo as asas para fora... – disse Tom, bem irônico, mas um tanto quanto surpreso pela atitude do magrelo. Deu um tapa na mão do garoto virando as costas para ele e dizendo – Ok, ok! Por essa sua bravura de hoje, vou te poupar da surra, mas chega de cena, já fez seu papel de homenzinho, agora vai para casa, em baixo da saia da mamãe... Ah! Me desculpe, esqueci que não tem mamãe no seu caso... – e sai rindo.
Agora Ïliel urrava de ódio e foi andando em direção a Tom.
- Saio daqui se quiser, não é você quem decide minha vida, e sim eu!
- O homenzinho quer briga? Então a terá!
Tom parte em direção a ele, fecha a mão e num rápido golpe, soca em cheio seu rosto, jogando-o no chão. Nisto, Evee choraminga. Levanta-se, cuspindo um pouco de sangue, cortara a gengiva nos dentes. Limpa um pouco do sangue que ficara escorrigo em sua boa com a manga do casaco e segue em frente novamente.
- Garoto, você quer encontrar sua mãezinha mesmo hoje não é? – e golpeia-o novamente, com toda sua força, na boca do estômago. Ele cospe sangue novamente e cai no chão com a mão sobre o abdômen e encolhido. Sem piedade, Tom começa a chutar as costela dele novamente, com toda sua fúria e covardia. Ele geme de dor, não agüentaria muito mais tempo. Algumas pessoas vendo aquilo saem do bar em direção à delegacia.
Depois de alguns minutos naquela situação, os comparsas de Tom afastam-no de Ïliel e Peter vai ao socorro do amigo. Ele parecia um cadáver, inerte. Peter o sacode fazendo-o despertar novamente, empurra Peter para trás e novamente se levanta, joga o sobretudo sobre a mesa.
- Foi tudo o que você tinha para mim? – Diz num tom vigoroso, como se nada tivesse acontecido. Tom olha para o garoto, assustado – Se foi tudo, agora é minha vez!
Tom empurra os companheiros para trás e avança contra Ïl, este vai ao encontro do oponente, olhar contra olhar, Ïliel tinha uma expressão assustadora em seu rosto, algo parecia tê-lo possuído. Eles se encontram, num ímpeto, Tom ergue o braço com o punho fechado e com toda sua força, mergulha-o contra Ïl. Todos fecham os olhos e escuta-se um estalo. Tom soltara um grunhido de dor, ‘ele quebrou minha mão, quebrou minha mão’ gritava, com apelo de dor, Ïliel havia repetido o mesmo movimento, golpeara o punho dele com o seu, mas não demonstrava nenhum sinal de dano. Tom afastara-se e ele caminha em sua direção, com punhos fechados, exitou por um momento, então todas as cenas de humilhação que ele o fizera passar vieram em sua mente, começou a golpeá-lo, esmurrou-o até que caísse desmaiado no chão, o rosto totalmente ensangüentado e inchado, sua vontade era continuar, faze-lo sentir toda a dor que sentira por todos aqueles anos, tinha deixado sua sanidade de lado, quando se deu conta de uma voz doce, chorosa, que estava atrás dele, “chega Ïl, já chega, ele já está caído no chão, não seja covarde como ele sempre foi...”, nesse momento ele cai em si, e olha a sua volta. Um silêncio mortal pairava no lugar, a musica havia parado e escuta-se do lado de fora o som de pessoas correndo par a porta, poderia ser a policia. Ïl olhou rosto a rosto, todos com a mesma expressão, espantados com aquela cena, uma cena que ninguém ao menos imaginara que pudesse ocorrer, olhou então para Evee e Peter, os únicos que importavam naquela hora. Estavam pasmos, “agora ele realmente voltara si”, disse Peter. Ïliel se afastou do corpo mórbido de Tom, sentou-se numa cadeira e pôs as mãos na cabeça, estava confuso com tudo aquilo. Evee havia pego uma toalha com uma garçonete e com todo seu ar meigo, limpou as mão dele, que estavam sujas de sangue, mas sem qualquer dano aparente, Peter deu-lhe um copo d’água e ajoelhou-se a seu lado com a mão sobre sua cabeça, num gesto fraternal.
- Está mais calmo agora meu amigo? Agora acabou...
- Sim... – respondeu, dando um suspiro fundo. Não sei por que fiz, só sei que fiz... Quis me defender apenas... Ele está vivo não está?
- Calma, fique calmo, ele só está apagado, – disse, vendo que Tom respirava e parecia ter espasmos –, você ainda não é o ‘Hulk’. Só se acalme, sabemos que você só queria proteger a todos nós...
A policia entra no local, e minutos depois escutam-se sirenes. Os para-médicos entram e vão socorrer Tom. Dois policiais levam os três amigos para o restaurante que fora aberto enquanto Tom era removido. Tenente Ekels, conhecido dos três e conhecedor dos antecedentes de Tom, interroga os garçons e algumas pessoas que estavam no bar, em seguida vai ao restaurante, ainda escuro, e confirma a história com os três. Peter conta tudo, desde a provocação e da briga do dia anterior, Ïl permaneceu em silêncio, apenas consentindo com a cabeça ao depoimento do amigo.
- Fique tranqüilo rapaz, foi legitima defesa, todos concordaram com isso, - disse Ekels num tom sereno -, você não será processado, apenas fique calmo e vá para casa com seus amigos. E aqui entre nós, - continuou, falando baixo -, ele merecia por tudo que te fez...
- Ele vai ficar bem?
- Creio que sim, mas quando acordar, pelo que os médicos falaram, vai se sentir como se tivesse sido atropelado por um ônibus, provavelmente. Disseram que pode estar com o maxilar fraturado e alguns outros ossos no crânio, pelo inchasso, a mão quebrada e rádio e ulna também quebrados em dois pontos cada, fora algumas outras pequenas lesões, nada que um tempo quieto não concerte! Boa noite rpazes.
Contudo, Ïl sentiu-se mais aliviado, não era aquela noite que seria lembrado por matar Tom, apenas por espanca-lo, mas logo isso seria esquecido. Os três se levantaram e saíram do ‘Sátiro’, não tinha percebido ainda, mas já estava amanhecendo. Entraram no carro de Peter e foram embora, seguindo o mesmo caminha que fizeram indo para lá. Passado alguns minutos, chegam à casa dos Klidné-vody.
Parada em frente a casa, uma ambulância com as sirenes acesas. Al estava sentado no jardim com alguns vizinhos ao lado, parecia desolado. “Meu pai”, pensou Ïl, “O que terá acontecido?”, desceu do carro e correra para Al, que agora chorava.
- Ele se foi... – disse ao abraçar o jovem rapaz – Cheguei aqui a noite, ele começou a passar mal, chamei a emergência, eles chegaram, mas não houve tempo para a remoção, tentaram o que estava em mãos, mas seu pai não resisitiu... – agora chorava desesperadamente, Ïl também estava chorando – suas últimas palavras foram ‘o quanto te amava e se orgulha de ter um filho como você’...
Já era dia nove de junho, amanhecera, uma leve brisa passava pelo lugar, embora um pouco frio ainda, a grama e as flores molhadas pela chuva da madrugada, os pássaros cantavam alegremente e os raios de sol surgiam no horizonte, o céu estava azul, como os olhos de Ïliel, límpido e belo.
- É meu amigo, - diz Ïliel virando para Peter e Evee, que também estavam chorando -, você disse que tinha pressentido que minha vida mudaria, parece que estava certo. Mas podia ter me avisado que não seria tão fácil de aceitar essa mudança...